O Infectologista

‘O infectologista, é um espaço voltado para médicos para discussão de artigos científicos, publicações comentadas por Renato Grinbaum.mit-killswitch_0

Neste espaço, algumas publicações são resumidas e sua metodologia e possível impacto são discutidos em linguagem médica, contextualizando os temas com a prática clínica.

Os comentários refletem um posicionamento pessoal de Renato Grinbaum, com a intenção de se promover debate científico, e não orientação específica. Os conteúdos das publicações são de responsabilidade dos autores.

Antibioticoterapia curta em infecções intra-abdominais

Artigo: Trial of Short-Course Antimicrobial Therapy for Intraabdominal Infection

sawy_oa1411162_thumb_111x111Autores: R.G. Sawyer, J.A. Claridge e mais

Local: University of Virginia Health System -Multicêntrico EUA e Canada

Fonten engl j med 372;21

Estudo: 518 pacientes com diagnóstico de infecção intra-abdominal complicada (IIAC) e controle adequado da fonte foram randomizados em dois grupos: Controle (antibióticos até 24após paciente ter ficado afebril, sem leucocitose e com resolução do íleo, duração aceitável até o máximo de 10 dias), ou experimental (até 4 dias após a intervenção cirúrgica). A antibioticoterapia não foi padronizada, mas só foram incluídos pacientes cujos esquemas estivessem em consonância com a recomendação da ISDA. O desfecho primário foi uma composição de infecção de ferida cirúrgica, infecções recorrentes ou óbito.

Resultados: Um total de 518 pacientes foram randomizados. O grupo experimental utilizou em média 4 dias de antibióticos, e o controle, 8 dias. Os eventos pós-operatórios (composto ISC/doença recorrente/óbito) ocorreu em 22,3% no grupo experimental e 21,8% no controle. A ausência de diferenças entre os grupos percebidas nos resultados se mantiveram nas seguintes sub-análises:

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Novos conceitos em infecções urinárias complicadas

O Guideline da European Urology Association é um dos mais completos sobre infecção C_Diff_Infectionurinária, e o que traz de mais importante é a organização da informação nas infecções complicadas. Estas infecções são frequente mal definidas, e cada autor ou médico costuma definir de forma particular (infecções em imunodeprimidos, em pacientes graves, acompanhada de sepse, na presença de fator modificável, bactéria resistente, etc.).

Na verdade uma definição completa e aplicável do que seja uma infecção urinária complicada é impossível. Por isto, nesta recomendação, a Sociedade Europeia de Urologia prefere orientar que se procure os fatores complicantes, e para cada grupo, diagnósticos e condutas são particularizados.

Os critérios para esta avaliação são:

  1. Apresentação clínica
  2. Gravidade
  3. Fatores de risco ORENUC
  4. Resistência da bactéria

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Corticosteroides para sinusite

Artigo: Systemic Corticosteroid Therapy for Acute Sinusitis

Autores:Roderick P. Venekamp,  Matthew J. Thompson,   Maroeska M, Rovers

Latbocal: Holanda

Fonte:JAMA 2015 Volume 313, Number 12: 1259

Estudo: Este artigo, uma pequena sinopse, é a meta-análise avaliando o uso de corticoides no tratamento da sinusite  bacteriana aguda. Foram incluídos estudos onde o uso de antibióticos foi comparado com o uso de corticoides associados aos antibióticos. O desfecho foi a melhora/resolução em duas semanas ou menos, comparado com mais do que duas semanas para melhora/resolução.

Resultados: 947 pacientes foram analisados, a partir de cinco estudos. Os resultados apresentados são sucintos, uma vez que a publicação é Continuar lendo

Haemophilus influenzae não tipável, patógeno emergente

Artigo:  Invasive Disease Caused by Nontypeable Haemophilus influenzae

orange-petri-dish-with-pink-and-green-bacterial-colonies-mdAutores:  Jeroen D. Langereis, Marien I. de Jonge

Local:  Holanda

Fonte:  Emerging Infectious Diseases Vol. 21, No. 10, October 2015

O estudo:  O Haemophyllus influenzae  é uma agente capsulado, e está associado a diversas doenças. O Haemophyllus influenzae  B é causador de doenças invasivas em crianças, incluindo a meningite. Com o advento da vacinação, a incidência deste patógeno foi reduzida. Os autores estudaram a incidência de outras variantes de Haemophyllus influenzae, em especial o não tipável (que causa infecções em pacientes com DPOC ou otite média em crianças),  após a vacinação, para entender a necessidade de estratégias futuras. Os autores sumarizando os estudos de vigilância do Netherlands Reference Laboratory for Bacterial Meningitis num período de 11 anos.

Resultados:  Os autores observaram aumento na incidência de casos de doença invasiva por Haemophyllus influenzae não tipável ou não-B. Continuar lendo

Valor clínico das culturas de secreção vaginal


Artigo
: Value of bacterial culture of vaginal swabs in diagnosis of vaginal infections

Autores: Dane Nenadić, Miloš D. Pavlović

orange-petri-dish-with-pink-and-green-bacterial-colonies-mdLocal:  Eslovênia

Fonte: Vojnosanit Pregl 2015; 72(6): 523–528

O estudo:  Os autores coletaram swabs vaginais e secreções de 505 gestantes assintomáticas entre a 24a. e 28a. semana de gestação. Compararam com testes mais rápidos: microscopia de fluido vaginal (VFWMM), pH vaginal e teste do KOH a 10%.

Os autores definiram vaginose bacteriana como aquelas que possuíam à microscopia predomínio de pequenas formas bacterianas (SBF), comparado com a quantidade de lactobacilos, sem aumento de polimorfonucleares e pH>4,5 ou KOH positivo. Isto independente de sintomas. A presença de KOH positivo evidenciando fungos e aumento de polimorfonucleares  garantiu diagnóstico de candidíase.

Resultados:  469 apresentaram cultura negativa. Das 36 positivas, 24 possuíam os demais testes negativos e foram consideradas assintomáticas. 12 apresentaram microscopia, Continuar lendo

Vacina para hepatite C: será possível?

Artigo: Why is it so difficult to develop a hepatitis C virus preventive vaccine?

5171Autores:C. Zingaretti, R. De Francesco e S. Abrignani

Local: Istituto Nazionale Genetica Molecolare (INGM), Milano, Italy

Fonte:Clin Microbiol Infect 2014; 20 (Suppl. 5): 103–109

A revisão: Apesar dos excelentes resultados dos novos tratamentos para a Hepatite C, a disponibilização da vacina seria uma grande evolução. Esta revisão procura elucidar por que é tão difícil desenvolver uma vacina para este vírus, e quais seriam as perspectivas.

O vírus

O HCV é um flavivírus que possui duas proteínas estruturais e 8 não estruturais. Ele é altamente variável por duas razões: alta taxa de replicação e a presença de uma RNA-polimerase que não possui mecanismo de correção de transcrição.

A vacina é factível?

Em primeiro lugar é importante saber que o organismo consegue desenvolver defesas contra o vírus e 20-35% apresentam clareamento da infecção espontaneamente. Continuar lendo

Hepatites agudas: que exames solicitar?

5171As hepatites agudas são doenças frequentes, na maioria das vezes benignas, mas que podem ser manifestação de outra doença sistêmica ou apresentarem gravidade. Curiosamente, vemos com frequência a solicitação de um grande número de marcadores desnecessariamente.

Alguns conceitos podem ser marcados:

  1. O estado vacinal sempre deve ser pesquisado, pois imunização prévia diminui risco da etiologia específica.
  2. História clínica (incluindo aspectos epidemiológicos) e exame físico detalhado devem ser pesquisados, buscando manifestações sistêmicas e possibilidade de doenças alternativas às hepatites virais clássicas. Por exemplo: mialgias, que podem sugerir leptospirose, sintomas urinários, que podem sugerir hepatite transinfecciosas, linfadenomegalia generalizada, comum em citomegalovirose, sem contar a epidemiologia para febre amarela e leptospirose.
  3. Transaminases em níveis<4 vezes o normal são inespecíficos e podem sugerir um número de diagnósticos mais amplos. Transaminases com níveis superiores a estes, em especial superiores a 500 estão maios associados às hepatites virais agudas e eventualmente à toxicidade medicamentosa.
  4. A pesquisa de vírus causadores de hepatite aguda deve incluir, de acordo com epidemiologia, pesquisa do vírus A (IgM anti-HAV), vírus B (HBsAg e anti-HBcAg IgM) e eventualmente sorologia para hepatite C. O anti-HBcAg IgM pode ser solicitado num segundo momento. Anti-HBsAg num primeiro momento poucas vezes será útil. HBeAg e anti-HBeAg não são exames para diagnóstico da infecção. Cabe lembrar que de acordo com a epidemiologia, pode ser solicitada a pesquisa de um ou mais vírus, não obrigatoriamente dos três.
  5. Em épocas de maior ocorrência de doenças veiculadas pela água, como hepatite A e leptospirose, muitas vezes a CPK ajuda a diferenciar as duas doenças, quando o quadro clínico não é claro.

O guideline prático da Washington State Clinical Laboratory Advisory Council apresenta fluxograma simplificado, que auxilia a conduta.

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Herpes: um tratamento nada convencional

Artigo:  Laser treatment of recurrent herpes labialis: a literature review

Autores:  Carlos de Paula Eduardo, Ana Cecilia Corrêa Aranha, Alyne Simões, Marina Stella Bello-Silva, Karen Muller Ramalho, Marcella Esteves-Oliveira, Patrícia Moreira de Freitas, Juliana Marotti, Jan Tunér

Local:  Odontologia da USP, Aachen University, Alemanha e consultório privado, Suécia

Fonte:  Lasers Med Sci (2014) 29:1517–1529laser_hands

O estudo: Revisão sistemática da literatura. A fototerapia por laser (laser desfocado ou de baixa intensidade) tem ação celular modulando diversos processos metabólicos pela conversão da luz em energia aproveitável pela célula, na mitocôndria. Desta forma, ela aumenta as espécies reativas de oxigênio (ROIs) e a liberação de óxido nítrico, entre outros processos que “aumentam o sistema imune”, ou  seja, promovem a inflamação.  Os autores afirmam que estes processos promoveriam maior cicatrização. A ação principal do laser seria uma ação anti-inflamatória, através da inibição da atividade da PGE-2.

Resultados:  Os autores afirmam que existe um pequeno número de estudos, quase todos com problemas de metodologia, em especial falta de padronização do laser. Os estudos, em sua maioria, mostraram aumento no intervalo entre os episódios de recorrência pelo herpes. Os laser de alta intensidade apresentam ação virucida, mas maior risco de queimaduras.

Comentários: O herpes labial recorrente pode não ser grave,mas é profundamente incômodo para paciente. Frequentemente prescrevemos antivirais por via oral para os casos de maior recorrência, o que tem seus problemas: toxicidade, adesão.O uso de laser é simpático por esta razão, poderia levar a uma diminuição de episódios sem a necessidade de tratamentos difíceis. É interessante conhecer uma modalidade alternativa, mas os próprios autores afirmam que a evidência em literatura ainda é fraca.

As quinolonas melhoram a probabilidade de cura da tuberculose?

Artigo:  Effects of Fluroquinolones in Newly Diagnosed, Sputum-Positive Tuberculosis Therapy: A Systematic Review and Network Meta-Analysis

Autores:  Dandan Li, Tiansheng Wang e mais

Local:  Peking University Third Hospital, Beijing

Fonte:   PLoS ONE 10(12): e0145066

O estudo:  Nesta meta-análise, os autores tentara avaliar se há ou não superioridade em esquemas anti-tuberculose contendo quinolonas (ciprofloxacina, ofloxacina, gatifloxacina, moxifloxacina ou levofloxacina). O esquema padrão estudado foi isoniazida + rifampicina + pirazinamida + etambutol.  Só foram incluídos estudos que abordassem tuberculose pulmonar de início com baciloscopia de escarro positiva. O desfecho primário foi negativação da baciloscopia em 8 semanas. Os desfechos secundários foram falha de tratamento, efeitos adversos ou óbito por qualquer motivo.

Resultados:  Foram selecionados 12 estudos. No gráfico abaixo, o esquema com maior negativação em 8 semanas foi o HRZEM, ou seja, o esquema tradicional mais a moxifloxacina(OR 4.96,95% CI 2.83–8.67). Sem a isoniazida, a moxifloxacina também apresentou melhor taxa de negativação (OR 1.48, 95% CI 1.19–1.84) .Esquemas contando com ciprofloxacina ou ofloxacina foram menos vantajosos. Os desfechos secundários foram avaliados em menor número de estudos, e as conclusões sugerem igualdade.

journal.pone.0145066.g004

Comentários: A literatura nos sugeriu por muito tempo que esquemas contando quinolonas, como a moxifloxacina, levariam a uma negativação mais rápida do escarro, e possivelmente, redução do tempo total de tratamento. Isto seria uma vantagem não só clínica, mas como também epidemiológica.

O estudo é uma meta-análise difícil de ser interpretada. Com tanta diversidade de esquemas (5 quinolonas), a análise individual de cada uma foi praticamente o relato do estudo-fonte. A análise conjunta, homogênea de dados parecidos neste caso não parece sólida. A quinolona mais estudada foi a moxifloxacina (4 estudos). Apesar da negativação em 8 semanas ter sido vantajosa para esquemas contendo esta quinolona, contraditoriamente a taxa de recaídas foi maior. Numa análise mais global, os autores não viram vantagens nos esquemas contendo quinolonas. No entanto, é necessária a realização de mais estudos, com critérios e esquemas mais comparáveis, para que possamos tomar decisões mais consistentes.