Os animais domésticos estão cada vez mais dentro da vida das pessoas. Não só numa função utilitária, mas afetiva. Existe uma nova ética na relação entre homens e animais. Uma nova mentalidade. Independente das grandes evoluções que esta relação comporta, uma maior integração do ser humano com seu ambiente, é importante a análise de alguns aspectos que surgem como efeito colateral desta nova forma de relação.
Cães e gatos não são seres humanos, têm necessidades específicas e, o que nos interessa neste momento, apresentam uma ecologia diferente dos seres humanos. Carregam uma microbiota própria à qual estão habituados e que não necessariamente se adapta da mesma forma ao ecossistema humano. Ao humanizarmos os animais, incorporarmos nossos hábitos e intimidades à rotina destes animais, estamos nos expondo (e expondo aos animais) a uma quebra de paradigma evolucionária, microbiológica. Existem riscos associados à forma com que estamos lidando com os animais?
Infecções tradicionalmente associadas aos animais domésticos
Alguns riscos são conhecidos, entre eles o de doenças hoje controláveis através de imunização (ex. raiva, leptospirose), aquelas cujos cães são hospedeiros (ex. leishmaniose) e principalmente mordeduras e arranhaduras.
Mordeduras – Os animais, tanto cães quanto gatos, apresentam uma microbiota oral diferente dos humanos. Eles podem carrar a Pastereulla multocida, uma bactéria particularmente agressiva para seres humanos. Os riscos de infecção são elevados, e a profilaxia é recomendada de acordo com critérios definidos. Entre estes critérios estão:
- Mordeduras nas extremidades na presença de comprometimento vascular ou linfático subjacente;
- Mordedura envolvendo a mão;
- Mordedura próxima a implante articular;
- Mordedura de gato;
- Ferimentos dilacerantes;
- Atraso para tratamento (> 6 -12 horas para mordeduras em braços ou pernas; >12 -24 horas para mordeduras de face);
- Feridas penetrantes;
- Vítima com diabetes mellitus ou imunossupressão.
Outros advogam profilaxia em hepatopatas.
É importante lembrar que estas mordeduras estão associadas ao desenvolvimento de osteomielite ou artrite, e a profilaxia deve ser feita amoxicilina-clavulanato por 3-7 dias para cobertura da Pastereulla multocida.
R. JOHN PRESUTTI – Prevention and Treatment of Dog Bites. Am Fam Physician. 2001 Apr 15;63(8):1567-1573.
ROBERT ELLIS e CARRIE ELLIS – Dog and Cat Bites. Am Fam Physician. 2014 Aug 15;90(4):239-243.
Arranhaduras – A doença associada à arranhaduas curiosamente pode ser transmitida por cães ou gatos, mais frequentemente pelos últimos: a Doença da Arranhadura do Gato. Esta doença, na maioria das vezes benigna, apresenta-se com febre e linfadenopatia única, com aspectos inflamatórios. No entanto, a doença pode ser disseminada, necessitando de antibioticoterapia por tempo mais prolongada. Ela é causada pela Bartonella henselae, que pode ser diagnosticada através de sorologia.
STEPHEN A. KLOTZ, VOICHITA IANAS e SEAN P. ELLIOTT – Cat-scratch Disease. Am Fam Physician. 2011;83(2):152-155.
The Center for Food Security and Public Health – Cat Scratch Disease and Other Zoonotic Bartonella Infections.
Mais infecções
Parasitoses – Os animais podem ser reservatórios de toxoplasmose, toxocaríase, giardíase e criptosporidiose. Assim, na presença de surto doméstico de diarreia causada por giardia, por exemplo, ou no caso de infecções refratárias ao tratamento, a participação de cães pode ser aventada.
Infecções intestinais – Além da Giardia e Criptosporidium, os cães podem ser portadores
de Salmonella e Campylobacter, agentes causadores de diarreia. Estes dois riscos nos alertam sobre a permissividade que temos com estes animais, ao permitirmos contato direto ou indireto com materiais provenientes do trato digestivo dos mesmos, seja através de beijos, ou indiretamente, por exemplo, deixando-os dormir na mesma cama.
Infecção urinária de repetição– Outra evidência recente é a presença de E. coli uropatogênica em animais que residem em casas de mulheres com infecção urinária de repetição. Há evidência através de biologia molecular de similaridade de cepas. A frequência e magnitude deste risco são desconhecidos.
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, Reducing the risk of pet-associated zoonotic infections. CMAJ July 14, 2015 187:736–743.
Riscos de resistência aos antimicrobianos
Nos
EUA os cães foram identificados como portadores de MRSA, e possivelmente implicados na transmissão em comunidade. Para a nossa realidade, os bacilos gram-negativos parecem ser mais preocupantes.
Não devemos nos esquecer que, além do contato com humanos, que podem carrear agentes resistentes, os animais também estão expostos a antimicrobianos, inclusive em alguns produtos alimentares. Dados dinamarqueses apontam maior consumo de antimicrobianos em animais domésticos quando comparados ao gado, mas inferior ao consumo por porcos. Este consumo aumenta o risco de carreamento de bactérias resistentes.
Estes animais podem ser reservatórios de MRSA, enterococos resistentes à vancimicina e gram-negativos resistentes às quinolonas ou portadores de ESBL. Num recente estudo brasileiro, através de biologia celular foi possível demonstrar que as cepas produtoras de ESBL isoladas em animais domésticos eram geneticamente relacionadas àquelas identificadas em seus donos.
Embora algumas peças do quebra-cabeças ainda estejam faltando, neste momento já podemos dizer que a humanização de animais domésticos pode estar associada a alguns riscos. Boas práticas higiênicas, e restrição a certos hábitos de risco podem ser medidas de prevenção eficazes.
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Riscos para imunodeprimidos
Na estratégia de humanização de tratamento de humanos, os animais domésticos vem sendo utilizados para amenizar sofrimento de indivíduos terminais ou imunodeprimidos. A literatura sugere baixo risco, desde que alguns princípios – aqui sumarizados – sejam seguidos:
Cuidados higiênicos
- Animais devem ser mantidos limpos e escovados para manter pele e pelagem saudáveis.
- Unhas devem ser cortadas para minimizar risco de arranhaduras.
- Pacientes devem higienizar as mãos após contato com animais, especialmente para reduzir contato com flora fecal do animal. Lembrar que animais lambem suas partes íntimas, e a boca também é considerada reservatório.
- Sempre supervisionar higienização de mãos de crianças.
- Material da cama de animais, como cobertores, devem ser lavados uma vez por semana e suas camas/gaiolas limpos regularmente por imunocompetente para minimizar contato com fezes.
- Fezes sempre devem ser acondicionadas em saco plástico e desprezadas imediatamente.
- Tanques de areia/resíduos devem ser mantidas longe das áreas de alimentação e cozinha. Um imunocompetente deve esvaziar os tanques. Estes tanques devem ser desinfetados mensalmente.
S. Hemsworth & B. Pizer – Pet ownership in immunocompromised children—A review of the literature and survey of existing guidelines. Eur J Oncol Nurs. 2006 Apr;10(2):117-27.
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